A Consolação da Filosofia, de Severino Boécio

Quando escreveu A consolação da filosofia, Boécio estava preso, acusado de ter-se juntado ao senador Albino em ato de traição em favor do imperador de Bizâncio, Justiniano I. Foi torturado e finalmente executado em 524 d.C. O livro é um relato de um diálogo fictício entre ele e a própria Filosofia. Depois de ler o relato breve do drama de Boécio e assistir à sua perplexidade diante da injustiça da acusação que sofria, ainda no começo da obra, somos tomados pela certeza: o preso está tomado de indignação. Foi acusado por indivíduos indignos e mentirosos. Será morto injustamente. Seu relato inicial é na verdade um pedido de auxílio, dirigido à Sabedoria. Antes que ela pudesse ajudá-lo, porém, era necessário tomar pé da situação do discípulo. Uma advertência inicial é feita por ela: “Bastou-me ver tua tristeza e tuas lágrimas para compreender que sofrias no exílio. Mas não poderia saber quão distante é o exílio a menos que me narrasses. No entanto, não foste expulso de tua pátria, mas te desviaste dela (…) Se lembrasses de tua verdadeira pátria, saberia então que ela não era, como a Atenas de outros tempos, governada pela opinião da maioria, mas ‘por um só mestre e um só rei’ (…) [e]stando ao abrigo de seus muros e fortificações, não se deve temer o risco de ser exilado. Mas, se te extravias de seus limites, corres tal risco.”
A princípio a Filosofia estranha o estado de Boécio, pois se tratava de um discípulo dedicado seu (“acho muito surpreendente que estejas doente da alma tendo pensamentos tão elevados”). Mas diante da revolta dele perante a injustiça que sofria, das suas queixas dirigidas às acusações feitas à Filosofia, de seus ataques violentos à Fortuna, das reclamações por não ter sido justamente recompensado por seus méritos e de seus “votos para que a terra fosse governada como o céu”, o diagnóstico foi preciso: o discípulo se perdeu. Que remédio lhe deve ser aplicado? Para responder à questão, é necessário uma anamnese mais profunda. À série de perguntas feitas pela Sabedoria, o discípulo responde com profunda sinceridade e interesse. As conclusões, que fecham o primeiro capítulo da obra, são as seguintes:
i) “eis que tua alma foi grandemente perturbada por sofrimentos e sentimentos de cólera e desespero que te puxam por todos os lados e te fazem ter disposições de espírito tais que não é possível ainda tratar-te com um remédio eficaz”;
ii) no começo serão usados alguns remédios paliativos: “assim, a espessa casca que a desordem de tuas emoções acabou por transformar num tumor será removida, primeiro por uma leve massagem que a preparará para ser tratada mais tarde por um medicamento eficaz”;
iii) porque Boécio afirmou que o mundo é dirigido por Deus porém sequer entendeu o sentido da pergunta “por que meios o mundo é dirigido?”, a Filosofia foi precisa: “Dessa forma, eu não me enganava quando dizia que te faltava algo, e foi por essa falha, tal como uma brecha numa sólida muralha, que se infiltrou em ti a doença causada por tua desordem emocional”;
iv) “O que é afinal um homem?”, pergunta-lhe a Filosofia. “Um animal racional e mortal”, responde Boécio. Como ele não distingue no homem outras notas, eis aí “outra causa de tua doença, e talvez esta seja a causa principal: deixaste de saber o que tu és”;
v) A Sabedoria conclui sua proposta de tratamento: “Consideramos que tua maior chance de cura reside na verdade de que acreditas num governo do mundo, quando dizes que ele não é sujeito aos acidentes mas à Razão Divina. Não temas nada: a partir de agora, desta faísca arderá em ti a chama da vida”.
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